E quando as opções não obrigam a consciência?

Terça-feira, 23 de outubro de 2018 às 18h 38  - Atualizado às 17h 13

“Onde existe alguma forma de voto livre como expressão máxima de consenso, o voto é dever muito grave. O voto deve seguir a consciência, isto é, deve refletir as convicções livres e informadas do indivíduo sobre qual pode ser a melhor linha política geral para certo povo em um momento preciso. [...] e cada cidadão, baseando-se em sua informação e avaliação, deverá, a cada vez, propor diante de si o único problema do BEM COMUM de um povo e de uma família humana naquela determinada situação. Nem interesse privado, nem lealdade a um partido, nem qualquer outra consideração pode prevalecer sobre este problema central.” (Dicionário de Teologia Moral, Paulus 1997)


O bem comum é o grande patrimônio e a herança irrenunciável da Doutrina Social da Igreja, tendo por base a pessoa humana como fundamento e fim da comunidade política. O bem comum e a pessoa humana estão no centro de toda proposta de organização sadia e correta da sociedade.


Em reta final de campanha eleitoral, num segundo turno para escolher o Presidente do Brasil e muitos governadores dos Estados, colocamo-nos estarrecidos diante das opções que temos. Opções que não obrigam a consciência pela escolha de convicção. Nossas consciências apontariam para outros nomes, outras propostas, outros projetos sociais, outras formas de fazer política e de fazer campanha e até indevidamente ao voto branco e nulo.

 

Foi uma campanha presidencial marcada por dois graves entraves: faltaram os sadios confrontos de propostas pela via de debates inteligentes e participativos (houve ataques e acusações mais que apresentação de propostas e políticas! O tempo nas mídias não dava para as duas coisas e se optou pela primeira estratégia!), e sobraram “fake news”, “old news”, “bad news”. Faltaram de fato good news! Faltaram palavras e projetos portadores de esperanças genuínas, de respostas críveis ao grave cenário do nosso país. Não é fácil acreditar que aquilo outrora prometido e não realizado ou os comportamentos políticos que mataram esperanças, tornar-se-ão agora realidade boa e séria pelos empenhos dos mesmos personagens. Não é fácil assinar agendas de intenções cheias de pontos contestáveis, problemáticos e anticristãos dos dois lados. Não é fácil apostar em quem não fez muito em âmbito menor e promete fazer muito em âmbito maior. Não é fácil acreditar em quem promete quase tudo como se tudo dependesse de uma única caneta ou vontade e como se não houvesse outras instâncias que participam, permitindo ou bloqueando, as mil promessas. Estamos entre o conhecido, com quem não concordamos em muitos aspectos para trás e para o futuro, e o desconhecido, que não sabemos para onde nos levará. Para onde querem levar o Brasil? Para onde querem levar os pobres? Que o eleito terá que ceder para governar, isto é certo! E muito! Ou então vamos ao caos da ingovernabilidade, à derrocada da democracia ou anarquia social! Livrai-nos do mal, rezamos com força e insistência!


O certo é que nenhum dos dois candidatos aprendeu a fazer política, a pensar o bem comum e a enxergar a pessoa humana na escola do Evangelho, na escuta e na experiência de Jesus. Talvez nem saibam que o Reino está no meio de nós, deve expandir-se com nossas escolhas e ações, deve instalar-se dentro e fora de nós, nos corações humanos e nas estruturas do mundo! É assim que rezamos como Jesus: “venha a nós o vosso Reino”. Se eles fazem política, tendo como critérios outros “valores” (ou pseudovalores ou semivalores ou avalores), como votar neles? Se o bem não é comum e se a pessoa não é fundamento, como escolher, quem escolher? Dos dois lados, há grandes e graves contradições à luz da fé. Cremos e aceitamos que há uma misteriosa compenetração da cidade terrestre e da cidade celeste que só a fé pode perceber. A Igreja, na sua missão, quer sanar e elevar a dignidade da pessoa humana, tornar mais sólida a coesão da sociedade humana e conferir uma significação mais profunda à atividade cotidiana de cada pessoa, para tornar mais humanas as vidas e a história. Ao mesmo tempo que a Igreja ajuda o mundo e dele também recebe muito, os discípulos de Jesus têm como missão uma só coisa: a vinda do Reino de Deus e, nele, o bem, a felicidade, a salvação (no mundo e do mundo!) de cada ser humano (cf. Gaudium et spes 40.45).


As orientações de possíveis discernimentos (e elas não faltaram!) nestas eleições nos colocaram diante do candidato inexistente, incompleto ou por vir! Precisamos como Igreja aprender a incentivar, formar e apoiar leigos e leigas que tomem para si e para a coletividade os princípios da política como a grande caridade e o grande bem, vencendo visões interesseiras, corporativistas, isoladas e míopes da vocação político-partidária. Os políticos que temos, na sua quase esmagadora maioria, ainda fazem política longe da ótica de Jesus, do Evangelho e do Reino. Alguns até têm o rompante e o atrevimento de levar consigo rótulos de pertença religiosa, mais por discurso do que por posturas. E, por vezes, não compreendemos de que Jesus e de que Evangelho bebem para fazer política!


Lamentavelmente, com consciência reticente e resistente e com inteligência humilhada, vamos pelo princípio inconsolável e aterrador do mal menor, do risco menor, da desgraça menor... E sem saber medir a proporção destas “situações menores”. É a última coisa a fazer, por não haver algo mais sensato. Só o tempo vai nos revelar o tamanho do mal ou do bem que escolhemos para nossa Pátria.


Contudo, votar é preciso! Escolher é um dever! Acompanhar os eleitos, criticar, exigir, vigiar, excluir, rezar, crescer em cidadania e civismo... são atitudes permanentes nas quais precisamos persistir e que nos educarão até as próximas eleições!

 


Dom José Carlos Campos
Bispo de Divinópolis-MG