Mário Clemente Neto: Dom nosso e de Deus para a Amazônia! 50 anos de Sacerdócio.

Quinta-feira, 18 de agosto de 2016 às 8h 29  - Atualizado às 8h 32

Mário Clemente Neto nasceu aos 07 de agosto de 1940, 76 anos hoje, numa comunidade rural chamada Capão Escuro, que então pertencia a Itaúna e mais tarde passou ao território do município de Carmo do Cajuru, criado em 1948.

 

Recebeu o Batismo na capela de São Sebastião, na comunidade de Córrego do Soldado, em Itaúna, das mãos do famoso e santo Pe. Waldemar Antônio de Pádua Teixeira, então Vigário da Matriz de Sant’Ana, em Itaúna.

 

É o 15º filho de uma família de 20 irmãos, frutos de dois casamentos do pai Antônio Clemente Neto (conhecido como Antônio Honório), que se casou com duas irmãs, Maria Francisca (a primeira, com quem teve 11 filhos) e Maria Eulália (a segunda, com quem teve 9 filhos). A mãe de Mário era tia dos seus irmãos mais velhos.

 

Em 1953, Mário saiu da roça e foi morar com os irmãos mais velhos na cidade de Itaúna para poder continuar os estudos, iniciados lá na escola rural, onde fora colega de escola da minha mãe. Lembro-me de ela me contar que levava arroz em casca que meu avô colhia, para ser beneficiado na fazenda da família de Mário. Já morando na cidade, Mário foi confessar-se e encontra-se com um sacerdote que colocaria os horizontes da sua vida: Pe. Adriano Turkemburg. Este sacerdote da congregação dos padres do Espírito Santo trabalhava com outros religiosos no Colégio Sant’Ana e nas paróquias de Itaúna e região. Era irmão do inesquecível Pe. Luiz Turkemburg, por décadas vigário da Paróquia de Fátima, em Itaúna, professor de educação artística e musical, na Escola Estadual de Itaúna. Nesta conversa com Pe. Adriano e numa visita posterior do padre à casa do menino, que se escondeu por vergonha, veio a pergunta decisiva e incomodadora: Mário, você não quer ser padre? Padre espiritano, claro!

 

Aí começa uma resposta a Deus, que levou aquele menino do Colégio Sant’Ana ao Caraça, de lá ao Seminário de Mariana, de lá a Teresópolis, no Rio, de lá a Roma, onde estudou teologia, morando num Colégio Internacional, onde, na convivência com os colegas, aprendeu inglês, francês, italiano, além do latim, língua das aulas, das provas, da liturgia.

 

Estudou sentindo o cheiro do Concílio Vaticano II, efervescente e fascinante naqueles anos da década de 60. Foi aluno de grandes nomes da teologia, como Fucks, Latourelle, Alfaro e outros. São teólogos e autores lidos até hoje. Mário viu os ventos que balançavam as batinas dos bispos no concílio e os ventos que balançaram a Igreja depois do Concílio.

 

Foi ordenado sacerdote aos 14 de agosto de 1966, pelas mãos de Dom Cristiano Portela de Araújo Pena, nosso primeiro Bispo. Foi o primeiro e único padre da congregação do Espírito Santo de origem itaunense. Ordenação no dia 14 e missa solene no dia seguinte...

 

Dali por diante, Mário, agora padre, deu muitas voltas e assumiu muitas tarefas na congregação: professor, formador, vigário... até virar bispo e amante da Amazônia.

 

Passou bons anos em Itaúna, no Colégio dos Padres Espiritanos. Ajudou muito a nossa diocese. Conheceu e conviveu com muitos de nossos sacerdotes veteranos: Ordones, Demóstenes, José Raimundo, Bento, Pedrosa, sem mencionar os mais antigos, José Netto, Hugo, João Parreiras, Guerino e Antônio Pontello... Assumiu trabalhos pastorais junto às comunidades de Itaúna, Itatiaiuçu, Azurita... Participou ativamente da nossa Pastoral Rural, na companhia do grande formador do povo rural da nossa diocese, Frei Bernardino Leers. Organizou e coordenou na diocese os cursos de preparação dos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão, uma novidade do Concílio.

 

Pe. Mário esteve com Pe. Ordones e Pe. Demóstenes em Tefé, onde já estavam os padres e um bispo espiritanos, quando começou o projeto de Igrejas-irmãs, na década de 70. Nossos padres voltaram e Pe. Mário ficou uns meses por lá.

 

Chegou o dia de ir embora de Itaúna. Foi trabalhar numa paróquia confiada aos padres espiritanos em São Paulo, na região da Lapa. Num período de férias de um colega espiritano que trabalhava em Tefé, Pe. Mário foi para lá, cobrir a ausência do companheiro de congregação. Pronto! Gostaram dele.

 

Dom Joaquim de Lange, espiritano holandês, então bispo da Prelazia de Tefé, gostou dele e tramou tudo. Indicou o seu nome para ser seu substituto como bispo da Prelazia. As tramas humanas tiveram os bons olhares de Deus e... eis Padre Mário nomeado bispo coadjutor de Tefé. Ficou dois anos com Dom Joaquim à frente da Prelazia e a assumiu em 1980.

 

19 de outubro de 1980: missa solene no Poliesportivo de Itaúna, e eu lá, para a ordenação episcopal de um padre de 40 anos. Eu que achava meus 46 ainda poucos para essa tarefa. O Bispo de Tefé, Dom Joaquim, presidia a cerimônia, Dom José Costa Campos, nosso segundo bispo, e Dom Alfredo Novak eram consagrantes.

 

Assim começa uma história de amor pela Amazônia. A sedução veio de dois encontros, duas idas, duas visitas à bela e exuberante Amazônia. Bastou isso para que um homem de 40 anos se encantasse com a cor, o cheiro, o jeito daquela gente e daquela Igreja, indígena e mestiça, quente e alegre...

 

Vinte anos como bispo de Tefé. A renúncia veio aos 60 anos, em outubro de 2000. Renunciou ao ofício de bispo, mas não renunciou ao amor pela gente, pelas terras, pelas águas, pelas belezas do coração da floresta. Já se passaram 16 anos e o Bispo Mário virou vigário, sendo Bispo, de uma das Paróquias da Prelazia. Nem malária, nem tuberculose, nem hepatite, nem marca-passo fizeram esse homem voltar de lá.

 

Já fiz proposta para ele voltar para sua terra natal e para ser aqui e fazer aqui o que ele faz lá. Mas a resposta vem rapidamente. “Lá na Prelazia, somos poucos. A paróquia é grande. Não posso deixar lá o padre sozinho. Meu coração está bom. Agora tenho marca-passo. Funciona na batida certa. Quero ficar por lá.”


Eis o homem que nasceu na roça, estudou na Europa e dá a vida pela Amazônia, já há 36 anos!

 

Formado no ventre da mãe e em meio a numerosa família, consagrado para ser sacerdote e profeta de Deus, começou cedo o caminho vocacional, a vida sacerdotal e o ministério episcopal...
Seminarista aos 13 anos, padre aos 26 e bispo aos 40. “Sou uma criança”, poderia ter dito ele a Deus, como Jeremias. Não teve medo das distâncias, nem das águas, nem dos bichos da floresta... “Eu estou contigo para defender-te”, disse-lhe o Senhor, e Mário acreditou. Não teve esposa e, por isso, não conheceu o divórcio, mas da Esposa que tem não quer se separar, daquela desposada em núpcias espirituais: a Igreja da floresta, a amada Amazônia, a querida Tefé. A aliança destas núpcias não lhe sai do dedo e leva ainda a forma do Espírito, aquele que o marcou no Batismo, na Crisma, no Carisma, no sacerdócio episcopal. Fez-se incapaz do casamento com uma mulher do mundo para abraçar e amar a Igreja, esposa pobre e bela escondida debaixo das imensas árvores, que são o pulmão do mundo, e regada pelo mais caudaloso e mais comprido rio do mundo, o Amazonas.

 

Obrigado, Dom Mário, pelo seu sim de 50 anos. Obrigado pelo seu testemunho de simplicidade e despojamento. Obrigado pelo seu amor pela natureza e pela gente da Amazônia. Obrigado por ser um dom: dom nosso para a Amazônia e dom maturado pela Amazônia para nós! Que o Espírito Santo de Deus, titular da sua congregação, renove a face da sua vida e da sua vocação! Amém.

 


Divinópolis, 12/08/16
Dom José Carlos
Bispo de Divinópolis

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