Corpus Christi

Terça-feira, 31 de maio de 2016 às 9h 49  - Atualizado às 19h 52

Corpo de Cristo é a Igreja; Corpo de Cristo é o irmão, sobretudo o pobre; Corpo de Cristo é a Eucaristia.


Corpo de Cristo é a Igreja.

O concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a Igreja, chamada Lumen gentium (Luz dos Povos), apresentando as imagens da Igreja, retoma a imagem bíblica e paulina da Igreja como Corpo de Cristo, e nos ensina:


Cristo Jesus, comunicando o Seu Espírito, fez misteriosamente de todos os Seus irmãos, chamados de entre todos os povos, como que o Seu Corpo. É nesse corpo que a vida de Cristo se difunde nos que creem, unidos de modo misterioso e real, por meio dos sacramentos, a Cristo padecente e glorioso. Com efeito, pelo Batismo somos assimilados a Cristo; «todos nós fomos batizados no mesmo Espírito, para formarmos um só corpo» (1 Cor. 12,13). Por este rito sagrado é representada e realizada a união com a morte e ressurreição de Cristo. [...] Ao participar realmente do corpo do Senhor, na fracção do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele e entre nós. ; «Porque há um só pão, nós, que somos muitos, formamos um só corpo, visto participarmos todos do único pão» (1 Cor. 10,17). E deste modo nos tornamos todos membros desse corpo (cfr. 1 Cor. 12,27), sendo individualmente membros uns dos outros» (Rom. 12,5).


E assim, como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam no entanto um só corpo, assim também os fiéis em Cristo (cfr. 1 Cor. 12,12). Também na edificação do Corpo de Cristo existe diversidade de membros e de funções. É um mesmo Espírito que distribui os seus vários dons segundo a sua riqueza e as necessidades dos ministérios para utilidade da Igreja (cfr. 1 Cor. 12, 1-11). [...] A cabeça deste corpo é Cristo. Ele é a imagem do Deus invisível e n 'Ele foram criadas todas as coisas. Ele existe antes de todas as coisas e todas n'Ele subsistem. Ele é a cabeça da qual a Igreja é o corpo. Todos os membros se devem conformar com Ele, até que Cristo se forme neles (cfr. Gál. 4,19). Por isso, somos assumidos nos mistérios da Sua vida, configurados com Ele, com Ele mortos e ressuscitados, até que reinemos com Ele (cfr. Fil. 3,21; 2 Tim. 2,11; Ef. 2,6; Col. 2,12; etc.). Ainda peregrinos na terra, seguindo as Suas pegadas na tribulação e na perseguição, associamo-nos nos seus sofrimentos como o corpo à cabeça, sofrendo com Ele, para com Ele sermos glorificados (cfr. Rom. 8,17).


É por Ele que «o corpo inteiro, alimentado e coeso em suas junturas e ligamentos, se desenvolve com o crescimento dado por Deus» (Col. 2,19). Ele mesmo distribui continuamente, no Seu corpo que é a Igreja, os dons dos diversos ministérios, com os quais, graças ao Seu poder, nos prestamos mutuamente serviços em ordem à salvação, de maneira que, professando a verdade na caridade, cresçamos em tudo para Aquele que é a nossa cabeça (cfr. Ef. 4, 11-16 gr.).

 


Corpo de Cristo é o irmão, sobretudo o pobre.

Ensina-nos o grande São João Crisóstomo, um dos Padres da Igreja, do século IV, falando acerca da presença do Senhor no pobre, tido como templo mais precioso da misteriosa presença do Cristo:


Queres honrar o Corpo de Cristo? Então não O desprezes nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm o que vestir, nem O honres no templo com vestes de seda, enquanto O abandonas lá fora ao frio e à nudez. Aquele que disse: «Isto é o Meu Corpo» (Mt 26, 26), e o realizou ao dizê-lo, é o mesmo que disse: «Porque tive fome e não Me destes de comer» (cf. Mt 25, 35); e também: «Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer» (Mt 25, 42.45). [...] Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas que sejam de ouro.


Não vos digo isto para vos impedir de fazer doações religiosas, mas defendo que simultaneamente, e mesmo antes, se deve dar esmola. [...] Que proveito resulta de a mesa de Cristo estar coberta de taças de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Sacia primeiro o faminto, e depois adornarás o Seu altar com o que sobrar. Fazes um cálice de ouro e não dás «um copo de água fresca»? (Mt 10, 42). [...] Pensa que se trata de Cristo, que é Ele que parte errante, estrangeiro, sem abrigo; e tu, que não O acolheste, ornamentas a calçada, as paredes e os capiteis das colunas, prendes com correntes de prata as lâmpadas, e a Ele, que está preso com grilhões no cárcere, nem sequer vais visitá-Lo? [...] Não te digo isto para te impedir de tal generosidade, mas exorto-te a que a acompanhes ou a faças preceder de outros atos de beneficência. [...] Por conseguinte, enquanto adornas a casa do Senhor, não deixes o teu irmão na miséria, pois ele é um templo e de todos o mais precioso.


Outro Padre da Igreja, agora do século VI, São Gregório Nazianzeno, grita num dos seus sermões sobre o amor e o serviço a Cristo na pessoa dos pobres:


Se me julgais digno de alguma atenção, vós, servidores de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, em todas as ocasiões, visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, acolhamos a Cristo, honremos a Cristo; não apenas oferecendo-lhe uma refeição, como fizeram alguns, não apenas ungindo-o com perfumes como Maria, não apenas dando-lhe o sepulcro como José de Arimateia, não apenas dando o necessário para o sepultamento como Nicodemos, que dava a Cristo só uma parte do seu amor, nem, finalmente, oferecendo ouro, incenso e mira, como fizeram os magos, antes de todos esses. O Senhor do universo quer a misericórdia e não o sacrifício, e a compaixão tem muito maior valor que milhares de cordeiros gordos. Ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao deixarmos este mundo, eles nos recebam nas moradas eternas, juntamente com o próprio Cristo nosso Senhor.


Diante das muitas expressões de pobrezas (os pobres de bens e os pobres de Deus), vale a palavra de Jesus: “Dai-lhes vós mesmos o de comer” (evangelho), o de vestir, o de preencher as carências da alma, o de crer... Todos comerão e sobrará! Temos para dar e temos quem multiplique nossos pequenos dons!

 


Corpo de Cristo é a Eucaristia.

O catecismo da Igreja Católica nos apresenta está forma de presença do Senhor.


O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela «como que a perfeição da vida espiritual e o fim para o qual tendem todos os sacramentos» (203). No santíssimo sacramento da Eucaristia estão «contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo». «Esta presença chama-se "real", não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem "reais", mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem» (1374).


Diante do que ouvimos e do longo testemunho do Magistério da Igreja, dos Padres da Igreja e da Escritura que não se pode citar aqui completamente, conclui-se que seria errônea uma redução da presença do Cristo à Eucaristia. Somos a Igreja da Eucaristia, mas o mistério da presença do Senhor está para muito além dessa preciosa e substancial presença. A redução eucarística da presença do Senhor reduz a Igreja. Uma redução eucarística gera uma redução do mistério da Igreja. Jesus não está só na Eucaristia, mas está mais na Eucaristia. Pode-se falar de uma concentração eucarística de presença, não numa redução eucarística. Se Cristo está só na Eucaristia e eu não posso participar dela, então não há sentido de estar na Igreja. Mas se Cristo e a Igreja são um corpo só, então pela fé e pelo Batismo estamos sempre em comunhão com Ele. Ele está no meio de nós e nós nele. Ele nos fala constantemente com o Amado à sua Amada. Ele e nós somos um. Estar fora da Igreja é deixar de comungar Cristo. Estar na Igreja é estar em permanente comunhão com Ele. Isso é expansão de presença. Isso é comungar.


Aos que estão fora da comunhão da Igreja, mas na comunhão de caridade, estes também comungam. Por aí passa a salvação dos que não creem ou não estão na Igreja, sacramento universal de salvação. Deus salva por meios que só Ele conhece. O amor é via da salvação. O amor gerou a encarnação, a cruz, a ressurreição, o dom do Espírito. O amor gerou a eleição do outro, do pobre, dos vários pobres (os de bens e os de Deus), como lugar e sacramento de Deus. O amor salva. Amar é atitude de quem está imerso no mistério de Deus e disposto a deixar-se salvar por Ele.


Não percamos nada dos fragmentos de Eucaristia, que, enquanto têm forma externa de pão ou são pão que se pode comer (IGMR, nn. 120, 138, 237-239), resguardam a presença real do Senhor, mas não percamos os fragmentos de pertença que nos unem à Igreja ou nos põem diante dos pobres. Perder estes fragmentos também é perder o Senhor ou deixar de honrá-lo. Há muitos graus e expressões de pertença à Igreja, que configuram e asseguram a comunhão com o Senhor. Não aconteça, como lembra o Papa Francisco, que caiamos “na tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros”, conclui o Papa. O outro, sobretudo os que provam as muitas pobrezas deste tempo, é também “sacramento de Cristo”, é Corpus Christi.


Somos a Igreja da Eucaristia, que comunga o Senhor no seu corpo e sangue, mas somos também a Igreja que comunga o Senhor pela pertença ao Corpo do qual Ele é cabeça; somos a Igreja que comunga o Senhor naqueles nos quais Ele quis se esconder. Não esqueçamos destas três palavras, que sinalizam tríplice comunhão: Isto é o meu corpo que é dado por vós (2ª leitura); Sou a videira, vós os ramos, ou, por analogia, sou a cabeça, vós os membros; e ainda: Tudo que fizerdes ao menor dos irmãos fizestes a mim. Amém.

 

Dom José Carlos | Bispo de Divinópolis

 

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