Balanço de fim de ano

Terça-feira, 29 de dezembro de 2015 às 10h 46  - Atualizado às 19h 30

Chegamos, de novo, a dezembro. O tempo voa. Ficamos velhos. A vida se vai. Que o tempo passe, isso é inevitável e bom. Que fiquemos velhos, isso é condição para se amadurecer. Que a vida se vá, isso faz parte da existência de quem não é definitivo. Qual é o problema então? O que nos incomoda mais? O tempo? Não. A velhice? Não. A vida passageira? Não. O que incomoda é a qualidade e os efeitos do tempo, do envelhecimento e da vida. Se a vida vai sendo construída no tempo, tomando forma bela e feliz, caminhando na direção de uma vocação que tende ao seu desfecho, isso é profundamente compensador e realizante. O nosso problema não é que temos só um pedaço de tempo na história do mundo; ou que vamos morrer um dia... Mas, o pior de tudo é não saber para onde queremos ir, onde queremos chegar, qual meta queremos atingir, o que queremos de nós mesmos. Pior do que viver sabendo que vamos morrer é morrer sem ter vivido de modo intenso e único o nosso caminho. Por que estou falando disso num artigo de fim de ano?

 

Porque esse é tempo de balanço. O que valeu a pena neste ciclo que se conclui? O que demos de nós aos outros? O que recebemos dos outros em nós? A vida foi partilha alegre e compensadora? Talvez tenhamos que “trocar” nossos fornecedores de afeto, de atenção, de amor, de correção... porque não cumpriram seus “prazos de entrega”. Essas coisas tão importantes chegaram em nossa vida neste ano atrasadas ou com validade vencida, ou seja, já chegaram estragadas ou do jeito errado. Fazer balanço não significa jogar fora o “estoque de vida” que acumulamos, mas significa usar do estoque que temos, que felizmente temos (e isso é a única coisa que temos e somos!), para “promover o nosso negócio”, e aqui estou falando de vida! O que até aqui conseguimos acumular de vida e de experiência é fruto de um caminho, tantas vezes tortuoso e cansativo, mas é o “meu” caminho. Não posso abrir mão dele. Não posso desconsiderá-lo. Não posso fazer de conta que ele não existiu. Tenho que, a partir dele, encontrar, se isso for necessário, “saídas de emergência” ou “luzes de emergência”, por onde eu possa redefinir minha direção, meu horizonte, meus sonhos, meu eixo vital. Fazer balanço significa não simplesmente lamentar a vida que temos ou o ano que suportamos, mas significa refletir sobre a vida que queremos e o futuro que desejamos. Tudo começa com um ato de vontade, uma boa medida de autocrítica e uma grande dose de esperança. A vontade me faz desejar o diferente; a autocrítica me faz ver a falência ou a crise do antigo; a esperança me aponta uma outra vida possível. O fim de ano é apenas fechamento de um pedaço de tempo, e um pedaço muito pequeno, uma fração de vida. Mas não podemos esquecer que um punhado de frações pequenas forma um milênio, um século, uma vida... Então, se perdemos esse ano, ele é apenas uma fração, mas vamos evitar acúmulo de perdas. Um ano não é uma vida, é somente um pedaço dela. Sobre o que passou, não temos mais poder de interferência nem de mudança. Sobre o que virá, somos “onipotentes”. Tudo dependerá de nós, de nossas decisões, de nossa coragem, de nossa esperança. Cada um fará de si o que bem entender. Não se trata de uma construção irresponsável do nosso ser. Isso não é vida... é aventura! Viver é projeto sério e empenhativo. “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, já disse o poeta português Fernando Pessoa. Alma pequena é alma medrosa, mesquinha, encolhida em si mesma, inconsequente... Alma grande é alma cheia do “sopro” criador e criativo de Deus; é alma que se deixa remodelar sempre; é alma capaz de perceber seu valor único e sem preço; é alma que não se cansa de si mesma; é alma que não descansa enquanto não se sentir pronta e completa no seio de seu Criador; é alma para quem tudo vale a pena quando esse “tudo” constrói, faz crescer, faz “ser mais”. Desejo que esta travessia de ano velho para ano novo, passando pela manjedoura da “Grande e Incriada Alma” que se fez carne entre nós, possa encher de paz, de suavidade e de beleza nossa alma vivente, soprada da boca do Altíssimo e Divino Artífice.

 

A todos, neste tempo tão favorável e bom, um abraço e uma prece, que peço, seja recíproca.

 

 

Dom José Carlos | Bispo de Divinópolis

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