A SOLICITUDE ECLESIAL PELO HOMEM
A missão da Igreja, enquanto prolonga a missão salvífica de Cristo, é, sem dúvida alguma, integral, ou seja, abrange o homem todo, na globalidade de suas dimensões. Esta missão, tal como a contempla a Carta Encíclica Redemptor Hominis de João Paulo II, abarca seja a dimensão escatológica seja a dimensão temporal do homem, interessa-se quer por suas relações com Deus quer por suas relações com os demais homens, é sensível seja à esfera da interioridade humana seja àquela de sua natureza social. Em uma palavra, a específica e prioritária preocupação da Igreja com o “destino divino”, que, desde toda a eternidade, Deus preparou para o homem, não diminui, mas, ao contrário, intensifica a sua atenção a tudo aquilo que incide sobre o “destino humano” no mundo temporal (cf. RH 18).
Do “destino humano” no mundo temporal, nada se subtrai à solicitude da Igreja. Ela, como diz João Paulo II, “não pode permanecer insensível a tudo aquilo que serve o verdadeiro bem do homem, assim como não pode permanecer indiferente àquilo que o ameaça” (RH 13). Eis um aspecto, não acidental, da missão da Igreja. Tal aspecto, que certamente não constitui o elemento mais essencial e primordial da missão eclesial, tem sido, todavia, constantemente contemplado pela Doutrina Social da Igreja e foi bastante enfatizado pelo Papa João Paulo II desde a sua programática Encíclica. Trata-se, segundo ele, de uma exigência decorrente daquele princípio eclesio-antropológico, central na Redemptor Hominis, segundo o qual o homem “é a via da Igreja, via da sua vida e experiência quotidiana, da sua missão e atividade” (cf. RH 14). Se é esta a posição do homem, de cada homem, em relação à Igreja, então, concluía João Paulo II, “a Igreja do nosso tempo tem de estar, de maneira sempre renovada, bem ciente da “situação” de tal homem” (cf. RH 14). Este estar a par da “situação” do homem implica, sem dúvida, a ciência e consciência das possibilidades do homem, das ameaças e dificuldades que sofre. E, entre nós e em nossos dias, urge certamente o dever eclesial de um conhecimento sempre renovado da situação humana. Não pode, pois, deixar de ecoar no coração da Igreja esta incisiva orientação da Redemptor Hominis: “A Igreja deve estar bem ciente das possibilidades do homem, que tomam sempre nova orientação e assim se manifestam; ela tem de estar bem ciente, ao mesmo tempo ainda, das ameaças que se apresentam contra o homem. Ela deve estar cônscia, outrossim, de tudo aquilo que parece ser contrário ao esforço para que “a vida humana se torne cada vez mais humana” (cf. GS 38; Populorum Progressio 21) e para que tudo aquilo que compõe esta mesma vida corresponda à verdadeira dignidade do homem. Numa palavra, a Igreja deve estar cônscia de tudo aquilo que é contrário a um tal processo de nobilitação da vida humana” (cf. RH 14).
Dizíamos, acima, que a prioritária preocupação eclesial com o “destino divino” do homem não atenua, mas, ao contrário, intensifica a solicitude da Igreja para com o “destino humano” no mundo. Mas deve-se afirmar também, inversamente, que a solicitude por este “destino humano” não pode prescindir – para ser verdadeira solicitude eclesial – da preocupação com o “destino divino” do homem. Com efeito, “sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de respiro” (Caritas in Veritate 11).
E quanto ao progresso humano neste mundo, Bento XVI recordou-nos recentemente em sua magnífica Carta Encíclica Caritatis in veritate: “além de requerer a liberdade, o desenvolvimento humano integral enquanto vocação exige também que se respeite a sua verdade”; e, remontando a Paulo VI, “a vocação ao progresso impele os homens a ‘realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais’ (Populorum Progressio, 6)” (Caritas in Veritate 18).
Mas – e aí está a questão decisiva! – que significa, do ponto de vista do progresso humano e da solicitude eclesial em seu favor, este “ser mais”?
- significa a promoção de todos os homens e do homem todo.
Paulo VI – como observa Bento XVI – responde à questão do significado do ser mais, “indicando a característica essencial do “desenvolvimento autêntico”: este “deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo” (Populorum progressio 14)” (Caritas in Veritate, 18). “O que conta para nós – escreve Paulo VI – é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira” (Populorum Progressio 14).
- significa jamais prescindir, no ocupar-se do desenvolvimento humano, da necessária referência a Cristo, chave hermenêutica do mistério do homem.
Bento XVI, por sua vez, apoiando-se em GS 22, enfatiza a necessária referência cristológica do empenho eclesial pelo desenvolvimento do homem. Ele, com efeito, assevera: “A fé cristã ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a privilégios nem posições de poder nem mesmo aos méritos dos cristãos – que sem dúvida existiram e existem, a par de naturais limitações (cf. Populorum Progressio 12) –, mas contando apenas com Cristo, a Quem há de fazer referência toda a autêntica vocação ao desenvolvimento humano integral. O Evangelho é elemento fundamental do desenvolvimento, porque lá Cristo, com “a própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo” (GS 22)” (Caritas in Veritate 18).
- significa perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los, oferecendo ao mundo uma visão global do homem e da humanidade; uma visão que não pode prescindir da vocação divina do homem.
A este respeito, Bento XVI, ancorado na Populorum progressio de Paulo VI, assim se expressa: “Instruída pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo “o que possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade” (Populorum progressio 13). Precisamente porque Deus pronuncia o maior “sim” ao homem, este não pode deixar de se abrir à vocação divina para realizar o próprio desenvolvimento. A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se não é desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, não é verdadeiro desenvolvimento. Esta é a mensagem central da Populorum progressio, válida hoje e sempre” (Caritas in Veritate 18).
- significa, ainda, assumir uma antropologia que, fazendo apelo a um humanismo transcendente, permite abarcar tanto o plano natural como o sobrenatural, pois a ausência de Deus enfraquece nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o “bem”.
Bento XVI, com efeito, assevera: “O desenvolvimento humano integral no plano natural, enquanto resposta a uma vocação de Deus criador (cf. Populorum progressio 16), procura a própria autenticidade num “humanismo transcendente, que leva [o homem] a atingir a sua maior plenitude: tal é a finalidade suprema do desenvolvimento pessoal” (cf. Ibid., 16). Portanto, a vocação cristã a tal desenvolvimento compreende tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por que, “quando Deus fica eclipsado, começa a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o “bem”” (Bento XVI, Discurso aos jovens em 17 de julho de 2008)” (Caritas in Veritate 18).
Gostaria de concluir, enfim, estas reflexões sobre a solicitude eclesial pelo homem com a seguinte citação de Bento XVI, em sua Carta Encíclica – Caritas in Veritate – sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade:
“A maior força ao serviço do desenvolvimento é um humanismo cristão (cf. GS 42) que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus. A disponibilidade para Deus abre à disponibilidade para os irmãos e para uma vida entendida como tarefa solidária e jubilosa. Pelo contrário, o fechamento ideológico a Deus e o ateísmo da indiferença, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer também os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obstáculos ao desenvolvimento. O humanismo que exclui Deus é um humanismo desumano. Só um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promoção e realização de formas de vida social e civil – no âmbito das estruturas, das instituições, da cultura, do ethos – preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento. É a consciência do Amor indestrutível de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a favor da justiça, do desenvolvimento dos povos, por entre êxitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos retos para as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que é limitado e não definitivo, dá-nos coragem de agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que não se realize imediatamente e aquilo que conseguimos atuar – nós e as autoridades políticas e os operadores econômicos – seja sempre menos de quanto anelamos (cf. Spe Salvi, 35). Deus dá-nos a força de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele é o nosso Tudo, a nossa esperança maior” (Caritas in Veritate, 78).
+ Dom Tarcisio Nascentes dos Santos
Bispo da Diocese de Divinópolis - MG