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Brasileiros e cidadãos

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Brasileiros e cidadãos
[1]Alisson Ferreira
 
    A urgência da construção e utilização dos espaços e ferramentas democráticas nas cidades mostra-se cada dia mais evidente. Num sentido mais amplo, e, recorrendo a nossa juvenil história republicana, vê-se que o anseio de uma sociedade voltada para a valorização da participação popular esbarra nos entraves de uma cultura política acostumada com a permanência.
 
    A cidadania é tratada por muitos como algo que se consegue de cima para baixo, ou seja, ela nos é concedida pelos homens públicos e suas ações políticas. A manutenção deste pensamento causou e ainda causa problemas na formação de cidadãos conscientes de sua importância nas transformações sociais.
 
     O Brasil se constituiu sob arcabouços legais que só fizeram evidenciar a superioridade de algumas classes sobre as outras. No período que compreende os dois reinados brasileiros (1822-1889), a monarquia exerceu um papel que visava o estabelecimento de uma unidade nacional, ela deveria nacionalizar a independência, levá-la aos confins do imenso território nacional e desfazer a imagem sulista que a proclamação da Independência deixou. Era necessário, também, garantir a manutenção desta unidade. Para isso, era urgente a criação de legislações que garantissem a inclusão dos diversos setores e classes da sociedade; não foi o que aconteceu. Em benefício das elites regionais, preocupadas com a manutenção de seus privilégios e benesses, tudo o que foi realizado só fez ressaltar o adiamento de muitas discussões pertinentes ao desenvolvimento da cidadania.  Como manter a unidade dividindo?
 
    Dividir foi, e ainda é, um verbo muito recorrente nas relações de dominação. Tornar um povo individualista, relativista e alienado não é algo fantasioso ou imaginário - é a política de muitas formas de governo. A nossa “modernidade líquida” [2] não se interessa em construir laços firmes, bases sólidas e estruturas familiares dentro das sociedades. O conceito de unidade, nesta realidade social, não pressupõe o “comunitarismo”, e a unidade a ser alcançada é baseada na aceitação de sistemas políticos nocivos de visões idealistas abstratizadas. Em suma, a divisão causada, nesta modernidade, faz com que as ferramentas de ação popular sejam prejudicadas, contribuindo para o enquadramento das pessoas em padrões pré-determinados que as distanciam da reivindicação de melhorias sociais.
 
     A participação popular não pode ser apenas um discurso, Deve ser um anseio que queima, uma vontade que impulsiona as comunidades e as revolucionam socialmente. O Brasil monárquico buscou nacionalizar a independência, lutou pela manutenção de uma unidade social, porém, o que conseguiu foi a construção de uma sociedade pouco participativa e à margem das decisões políticas. Os resultados destas ações estão enraizados em nossa nação até os dias atuais.
 
     Comunidades participativas e integradas às discussões políticas constroem justiça social, promovem a partilha e contribuem para o real e efetivo desenvolvimento das práticas democráticas. As disparidades participativas criadas ao longo da história do Brasil não podem mais fazer parte de nossas comunidades. Como agentes sociais, o presente está a nos cobrar mais participação, mais reivindicação, para que os anseios de uma nação, verdadeiramente unida, não fiquem apenas na utopia.    


[1] Graduado em História pela Universidade de Minas Gerais – Campus Divinópolis e Pós-Graduado em História e Cultura Afro-brasileira e Africana pela PUC/MG
 
[2] Nome de uma das obras do Sociólogo polonês, Zigmund Bauman

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