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Campanha da Fraternidade e o Negro

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A violência do racismo e a Campanha da Fraternidade
                     
                                                                                                                                                                                  * Alisson Ferreira
 
A construção da identidade, elemento constitutivo primordial do princípio da igualdade entre as relações raciais, por muito tempo teve caráter irrelevante nas análises sociológicas, principalmente nos países que construíram todo seu contexto político, social, cultural e econômico com base na exploração de outros povos, como é o caso do Brasil.
 
O conceito de identidade é formado a partir da reunião de elementos naturais ou coletivos de um grupo que comportam duas dimensões: a pessoal e a social. A pessoal é proveniente do processo de identificação do indivíduo com o outro considerado essencial em sua socialização. Para o Psicólogo e médico francês, Henri Wallon, o ser humano é essencialmente social. Na relação eu-outro é que se criam as possibilidades de integração e partilha dentro de uma comunidade. 
 
Porém, é notório que a construção da identidade negra no Brasil foi iniciada dentro do processo de escravidão, com vários movimentos de revolta, por símbolos representativos, como a cor da pele, e também pela própria posição de escravo ocupada em mais de trezentos anos de história. Este processo histórico desconstituiu o sujeito negro das relações sociais no que diz respeito ao princípio da igualdade social.
 
Desde o início da história os valores e costumes da cultura africana ficaram submissos à vontade da política colonialista. As práticas sociais discriminatórias de situação de injustiça social, exploração e opressão que prevaleciam nos períodos colonial e imperial existem ainda hoje, de forma sutil e perversa. Sutil pelo fato de que as elites dominantes ainda criam modelos de comportamento e costumes, os chamados “branqueamentos”, que pouco a pouco são incorporados pelos negros. Perversa, quando se evidencia que as várias tentativas de implementação de mecanismos de inserção dos negros nos setores sociais são vistas e tratadas como “medidas desnecessárias”.
 
A falta de inserção do negro é oriunda da anulação do mesmo como sujeito social e histórico. A cor da pele, constituída como empecilho, revela até hoje as diversas dificuldades encontradas pelos cidadãos negros brasileiros nos vários setores da sociedade. Dificuldades estas, herdadas das políticas elitistas coloniais e imperiais que alimentaram o ímpeto de um Brasil ideal: o Brasil europeizado.
 
Tem-se atualmente uma corrida identitária que coloca o negro em uma luta constante contra a violência vivida em séculos de racismo. Para João Batista Jorge Pereira, o afro-descendente visa a positivação de seus direitos: “O negro não está só no processo de reelaboração de identidades positivas. Há todo um processo universal contemporâneo de reafirmação, consolidação, elaboração e reelaboração de identidades étnicas pelo mundo afora. São identidades que foram banidas, apagadas, esmaecidas, abafadas, sufocadas, eclipsadas durante certos períodos históricos e que, hoje, pedem reconhecimento, o direito de existir” [1].
 
O manual da Campanha da Fraternidade-2009 dá atenção à questão da violência     do racismo e diz que uma de suas formas mais cruéis está na desfaçatez de esconder a existência do mesmo quando ele existe de fato e é indisfarçável. Em suma, para que o suposto problema do racismo seja resolvido seria só fingir que ele não existe. Esta política de máscaras é a bandeira do mito da “democracia racial”. Níveis elevados de negação do racismo e de opressão das classes mais desfavorecidas podem levar a um patamar de perversidade intolerável e produzirem manifestações revanchistas e apelos veementes por justiça através de mais violência.
 
Contrária aos inúmeros exemplos maléficos e discriminatórios que atentam contra a dignidade humana e que insuflam nas mentalidades os mais perversos sentimentos de revanche, a CNBB faz um apelo aos cristãos do Brasil para que se dediquem a combater a cultura de morte que se instalou na sociedade brasileira e a banir de nossos lares programas e leituras que incentivem a promoção do escárnio humano e a divulgação de noticias sensacionalistas.
 
Somos chamados a optar por Jesus e não pelas ideologias mortais que estão se espalhando pelo país, fruto da insegurança e da falta de políticas públicas que nos garantam a tranquilidade. Optar por Jesus é optar por valores que construam uma sociedade sem a crueldade do racismo e a perversidade da indiferença.
 
A Campanha da Fraternidade nos ajuda a viver a concretude da experiência pascal, onde a vida vence a morte e não o contrário. Jesus nos convoca para um grande mutirão pela vida, uma grande marcha com bandeiras em punho pela paz.        
 
Uma sociedade pautada nos valores ditados pelo Evangelho garante a justiça, o respeito às diferenças e promove verdadeiramente a PAZ. 
 
 
 

 

* Alisson Ferreira - Graduado em História e Pós-Graduado em História e Cultura Afro-brasileira e Africana pela PUC/MG

[1] PEREIRA, João Batista Borges. A criança negra: identidade étnica e socialização. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n° 63, p 41-45, 1987.

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