
No dia 19 de junho próximo passado celebrou-se a solenidade do Sagrado Coração de Jesus e o dia de Santificação Sacerdotal. Neste dia, com uma celebração em Roma, presidida pelo Papa, foi aberto o Ano Sacerdotal.
Convocado por Bento XVI, por ocasião do 150º aniversário da morte de São João Maria Vianney – já padroeiro dos párocos e, agora, proclamado padroeiro dos sacerdotes de todo o mundo –, o Ano Sacerdotal, com o tema “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”, terá por objetivo, segundo expressou o Papa aos membros da Congregação para o clero, “ajudar a perceber cada vez mais a importância do papel e da missão do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea”.
Em carta aos sacerdotes, solicitei que em todas as comunidades paroquiais de nossa Diocese se organizasse alguma celebração, no dia 19 de junho, a fim de que, em comunhão com o Santo Padre, ficasse marcada, entre nós, a abertura do Ano Sacerdotal. Na Catedral, por exemplo, ela foi marcada por uma Hora Santa Eucarística.
Neste contexto de abertura do Ano Sacerdotal, desejo oferecer algumas reflexões sob o título:
“O coração do Cristo... o coração do Padre”.
Pulsa de amor pelos homens o coração de Deus. Anseia por repousar em Deus o inquieto coração do homem. A aliança eterna desses dois corações será o ponto “ômega” de uma história – a da Salvação – que já atingiu o seu clímax no coração do Homem-Deus, no coração divino-humano do Deus feito homem – Jesus Cristo.
Com efeito, no Verbo de Deus feito carne todo o passado foi recapitulado e o futuro, definitivamente alcançado para os homens, tornou-se-lhes presente em germe, restando ainda o ser plenamente acolhido nos corações humanos.
Se como discípulos amados e tal qual João, o discípulo amado, reclinássemos até seu peito nossos ou vi, por certo auscultaríamos as pulsações divino-humanas daquele coração que de tanto amor sangrou por nós.
- Pulsava unido e fiel a Deus e aos homens: Um com o Pai, fez-se, também, um com os homens a fim de recrutar a todos para a verdadeira unidade, radicada na unidade do Pai e do Filho. Com absoluta fidelidade, Jesus Cristo revelou-nos a pessoa do Pai, seu desígnio salvífico, seu gesto pleno de amor e misericórdia – a doação de seu Filho unigênito. A nós hoje repete o que um dia dissera a Filipe: “Quem me vê, vê o Pai”. Ah! Se soubéssemos olhar e ver! Deus e homem, exemplar único para os homens criados e recriados, Jesus Cristo foi de uma incondicional fidelidade aos homens, sendo fiel a si mesmo e ao plano do Pai; desconcertando sempre os planos humanos quando, alheios aos critérios divinos, eram, sem dúvida, falsos e ilusórios; fazendo-se um com os homens em tudo exceto no pecado, onde justa-mente se enraízam as amarras que os escravizam; assumindo tudo e até mesmo o pecado para cortar, pela raiz, as amarras que acorrentam os homens e reatar-lhes os laços com Deus, laços que libertam, que fazem crescer, que trazem plena felicidade; amando-os até a doação da própria vida e não há maior prova de amor!
- Pulsava obediente e para servir: Trinta anos no seio da família de Nazaré, no convívio com Maria e José, e lhes era submisso. Toda uma eternidade junto do Pai, dizendo-lhe eternamente SIM. Uma breve existência histórica, sacramentalmente perpetua - da, na qual, fazendo-se obediente até a morte e morte de cruz, ocupou-se das coisas do Pai e do serviço dos homens, oferecendo-lhes sobretudo o divino e não apenas o humano, sobretudo o eterno e não apenas o transitório, sobretudo o absolutamente essencial e indispensável e não apenas o que se obtém por acréscimo, sobretudo o que gera uma felicidade total e perene e não apenas o que produz passageiros momentos de felicidade, oferecendo-lhes o Reino e a Paz de Deus e não um reino que fosse deste mundo ou uma paz meramente humana.
- Pulsava com coerência e autenticidade:Não havia no Cristo falsidade alguma, nenhuma sombra sequer de ambiguidade, nada, por mínimo que fosse, de incoerência ou dualidade. Nele, tudo é verdade, coerência e autenticidade. O sim, sim; o não, não. As palavras explicando os atos e estes corroborando aquelas. O pensar, o dizer e o agir perfeita-mente integrados e harmonizados.
- Pulsava, deixou de pulsar, tornou a pulsar... por AMOR:Ao ser concebido no seio da virgem Maria, ao nascer em Belém, ao ser batizado no Jordão, ao convocar os doze e os demais, ao ensinar e curar por toda a Judéia, Galiléia e Samaria, ao caminhar para Jerusalém, ao instituir, na Ceia, a Eucaristia e o Sacerdócio, ao conduzir sobre os ombros, para o Calvário, o lenho da cruz e ao ser nela pregado seu coração batia por amor, glorificando o Pai, acolhendo, perdoando e salvando os homens. Ao exalar o último suspiro deixou de bater, também por amor, seu coração. Ao ressuscitar ao terceiro dia tornou a bater, por amor, o coração do único e eterno Sacerdote Jesus Cristo.
Hoje, na Igreja, prolongamento do Cristo, bate o coração de milhares de homens chamados por Deus ao sacerdócio ministerial, configurados, para o bem do Povo de Deus, a Cristo Sacerdote, Cabeça, Pastor e Esposo.
Quero auscultar-lhes o coração sacerdotal; quis um dia, porque Deus assim o quis, meu coração, pequenino, frágil, temeroso, apenas humano, mas divinizado, pulsando, sacerdotal, igual ao deles. O deles e o meu, sob o influxo da graça, a pulsar em uníssono com o coração de Cristo. O coração de Cristo pulsando em nossos corações: admirável transplante operado pelo divino cirurgião!
Fiel a Deus e aos homens, obediente e servidor, com coerência e autenticidade, por amor, glorificando a Deus e salvando os homens: assim bate o coração de Cristo, assim deve também pulsar o coração dos Padres.