Homilia para a Solenidade de Corpus Christi 2017

Quinta-feira, 22 de junho de 2017 às 10h 02  - Atualizado às 14h 57

HOMILIA PARA A SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI 2017
Divinópolis, 15/06/2017


“Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão”. Um pão. Um corpo. Uma comunhão.


Hoje não celebramos o dia da instituição da Santíssima Eucaristia. Este dia foi a quinta-feira da Ceia do Senhor, naquela bendita noite que nos introduziu no Tríduo Pascal. Hoje, queremos recordar uma fração dos efeitos daquela palavra de Jesus: “Fazei isto em memória de mim”. O Senhor dá nova realidade ao pão e ao vinho. “Isto é meu corpo”. “Este é o cálice do meu sangue”. Ele não disse que pão e vinho simbolizam ou que representam. Não disse que se parecem ou imitam. Disse que “isto é”. Não é pão. É o seu corpo. Não é vinho. É o seu sangue. A realidade ou a essência de pão e de vinho são transformadas, são transubstanciadas, pela palavra poderosa de Jesus. Palavra pronunciada na quinta. Realidade da entrega na sexta. Se não houvesse a sexta da cruz e da entrega de si, a quinta da ceia seria apenas um teatro de mau gosto. A realidade sofrida da sexta da paixão dá sentido perpétuo às palavras da quinta da ceia. O pão e o vinho, sobre os quais são pronunciadas as palavras do Senhor Jesus, se tornam, na mínima partícula, o corpo e o sangue do Cristo. Nada se pode perder. Tudo se torna Cristo depois das palavras da consagração. E isso não só enquanto dura a missa, mas enquanto durarem as espécies.


Um dia, uma pessoa me disse algo que mudou minha devoção eucarística. Esta pessoa, então impossibilitada de comungar, me manifestou seu desejo de tomar uma só gota da água que purifica o cálice depois de o padre ter tomado dele ao final da comunhão. Assim, dizia ela, poderia experimentar minimamente a presença real de Jesus na gota final que permanece no cálice que é purificado com a água. Desde então nunca mais deixei de purificar com cuidado cada âmbula onde permaneciam pequeninos fragmentos, quase invisíveis, da realidade do pão ou da realidade do vinho. Ali está Jesus inteiro. Dele nada se pode perder. Nem se atirar ao chão. Há quem deseje o pedacinho que cai no chão ou a gota que fica no cálice! Aquela pessoa que me manifestou seu desejo me ensinou mais que Santo Tomás de Aquino! Este insigne teólogo dizia: “É Corpo de Cristo enquanto é pão comível. É sangue de Cristo enquanto é vinho bebível”. Mas, aquela pessoa me ensinou que é impossível medir onde está o mínimo que não comporta mais a presença de Jesus. O mínimo fragmento pode esconder a totalidade de Cristo. Aqui, por favor, nada de extremismos insanos. Eles, infelizmente, existem. Mas também nada de racionalismo que estabelece até onde Cristo está. Melhor supô-lo no mínimo e comunga-lo verdadeiramente do que atirá-lo fora porque pequeno demais. Melhor pecar por zelo que por descuido.
Esta presença definitiva e real, que continua para além da missa, oferece e exige de nós um culto de adoração e de reverência. Aquele que mantemos guardado nos sacrários é verdadeiramente o Senhor Ressuscitado, cujo corpo glorioso resplandece e é contemplado quando apresentado fora da missa ou exposto para adoração.


A festa de Corpus Christi nasceu para garantir e estimular este culto de adoração eucarística e para ensinar que o Cristo Senhor habita no meio de nós, tem sua casa entre as nossas casas, pode ser visto e adorado fora da celebração que produz esta presença, pode ser “comido” mil vezes por olhos adoradores, depois de “comido” uma vez pelas bocas famintas de Deus. Pôr os olhos no Santíssimo Corpo do Senhor, exposto para adoração, é também comungar de alguma forma. O olhar, o desejo, o coração adorador permitem que nossa alma se sinta visitada pelo Ressuscitado. Não saímos os mesmos depois de termos comungado. Não saímos os mesmos depois de uma adoração eucarística.
Certamente, se é pão, é para ser comido. Não para ser visto ou adorado simplesmente. Ele se fez pão para nos dar vida, vida de Deus, vida santificada, vida eterna. Contudo, na nossa prática eucarística, podemos conjugar e articular bem os verbos comer, olhar, adorar, permanecer... Nestes verbos, enquanto expressões da fé, nós recebemos e experimentamos o Corpo do Senhor, que está no meio de nós, que é comida para nós e que somos nós!


“A minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe meu sangue permanece em mim e eu permaneço nele”. A Eucaristia é ocasião de permanecer nele. Ele no pão. Nós nele quando o comemos. Ele em nós. O pão que comemos é o Corpo dele. E mais ainda: nós somos também o seu Corpo. Então, na celebração eucarística se produz o Corpo de Cristo, se come o Corpo de Cristo e se expressa o Corpo de Cristo. Três belos efeitos da Santa Missa.


O Sacrifício da Missa produz o Corpo de Cristo, alimenta o Corpo de Cristo e cria comunhão no Corpo de Cristo. “O que o Cristo fez na ceia, manda à Igreja que o rodeia repeti-lo até Ele voltar” (sequência). “Tomai e comei... tomai e bebei...”. A Igreja produz e conserva todos os dias o mistério de uma presença. Eis o mistério da fé, que repetimos até que Ele volte. Ele está no meio de nós! A Eucaristia é o Corpo do Cristo ressuscitado e glorioso!


Mas também a Eucaristia alimenta o Corpo de Cristo, que é a Igreja, que somos nós, a comunidade dos discípulos que cremos sem ter visto. “Aquele que me recebe como alimento viverá por causa de mim”. A Eucaristia sustenta a fé de cada discípulo, a fim de que dê conta da sua travessia nesta existência, como o Povo deu conta do deserto com o maná de Deus (1ª leitura, do Livro do Deuteronômio). O discípulo, alimentado e transformado naquele que ele recebeu na Eucaristia, participa da fé da Igreja, Corpo de Cristo no mundo. “Aquele que comemos na Eucaristia nos transforma nele”, ensina Santo Agostinho. O discípulo alimentado vai tomando a “forma de Cristo” (forma Christi), agindo, pensando, decidindo, caminhando segundo Cristo. Se não tomamos da Eucaristia, não teremos a vida em nós nem daremos vida ao mundo. Se a tomamos, temos a vida eterna, a vida de Deus em nós, a vida de ressuscitados, a vida do último dia, antecipada na fé para este dia, para cada dia antes do último! “Quem está em Cristo é uma criatura nova” (São Paulo), e capaz de tornar novas todas as coisas.


Aquele que no seio da Igreja e com a Igreja produz a Eucaristia e come dela, esse é capaz de criar comunhão que expresse sua pertença a Cristo. A Eucaristia cria a comunhão no Corpo de Cristo. Quem produz esta presença e comunga Jesus está destinado a integrar e vivificar seu Corpo que é a Igreja. A Eucaristia faz a Igreja. Se a Eucaristia produzida e comungada não gerar comunhão entre nós, o mais importante não aconteceu. Mas o mais importante não seria a presença dele nos elementos do pão e do vinho? Não! Isso só depende dele, e Ele já está vivo à direita do Pai antes de estar na Eucaristia. Ele quis estar conosco, ensinou a celebrar o memorial desta presença e garantiu que estaria sempre que tudo fosse feito como Ele recomendou e por quem Ele enviou. Porventura, o mais importante não seria então alimentar os famintos do pão de Deus? Não! Porque Deus pode dar outro alimento, antes da Eucaristia, como deu e alimentou seu povo com pão do céu na travessia do deserto. O mais importante, portanto, é o “por que Jesus se fez Eucaristia, para matar a fome dos famintos de Deus”. Fez-se presença e alimento para gerar e revitalizar uma Igreja que fosse comunidade dos discípulos que, comendo o Corpo do Senhor no Pão, fosse capaz de cuidar do Corpo deste mesmo Senhor nos seus membros, incontáveis, ainda imersos na paixão e na dor, na solidão e no abandono, na descrença e na treva, e fosse uma comunidade que gerasse vida, cuidasse de todas as formas de vida do planeta e garantisse vida para as gerações futuras.


Quando dizemos “amém” depois que recebemos nas mãos o Corpo de Cristo, estamos dizendo que cremos naquela presença, estamos agradecendo por aquele alimento e estamos nos comprometendo com o Corpo do Senhor que é a Igreja, em cada membro, em cada situação, em cada missão para onde vai o comungante depois da missa. Dizer “amém” antes de comungar é dizer: Creio, Jesus, que recebo teu Corpo, real e verdadeiramente; creio que me alimento do teu Corpo, pão vivo que me dá vida e ao mundo; creio e me uno à Igreja, teu Corpo. Agostinho explica bem isso, em poucas palavras, quando escreve: “Sobre o altar está o Corpo de Cristo. Vocês são o Corpo de Cristo. Recebam o que vocês são”.


Queridos irmãos e irmãs, comungantes desta solenidade e de sempre, nosso país está precisando de cristãos, comungantes e adoradores que pensam com seriedade a realidade, os problemas, o futuro, as estruturas políticas e sociais da nossa pátria. Cristãos, discípulos, cidadãos que dão valor e importância ao voto e à boa e à sadia política, que não se deixem corromper nem apoiem a endêmica corrupção que se alojou entre nós, e que rezem, como hoje rezamos, em comunhão com todas as dioceses do Brasil, para que saiamos por vias legítimas e ordeiras deste estado de calamidade ética, política e social em que nos encontramos. O Brasil é uma nação religiosa, cristã, eucarística, mariana.

 

Com os olhos fitos em Jesus, alimentando-nos dele, adorando-o como nosso único Senhor, aprendamos a ser discípulos na Igreja e como Igreja, profetas da esperança, cuidadores da vida, cidadãos do infinito que, no meio de muitas situações que nos humilham e de muitos desertos cheios serpentes abrasadoras, escorpiões e aridez, profetizemos o tempo em que tudo será, um dia, ainda neste mundo, do jeito de Deus! Amém.


Dom José Carlos Campos
Bispo de Divinópolis

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